Investidores, consumidores e quem paga o almoço das startups

Tem me chamado atenção uma parte da galera startup que parece estar mais preocupada em ter uma ideia para ser patrocinada por um investidor do que ter uma solução que atenda uma demanda do mercado e seja comprada por consumidores. De repente, o objetivo passa a ser conquistar sócios, e não clientes.

Bom, startup não é ONG. Startup é uma empresa. E a função social de uma empresa é gerar lucro. Só assim haverá benefício para todos. Só com lucro a empresa pode dar melhores condições aos colaboradores, contratar mais fornecedores, aumentar investimentos, e por aí vai.  Uma empresa com dívidas gera desemprego, prejudica parceiros com quem tem débito, não investe nas pessoas nem atende melhor seus clientes. Só que aporte financeiro não é lucro, é um investimento feito por alguém.  E aí vamos a um ensinamento de Mises no seu clássico Ação Humana – Um Tratado de EconomiaO objetivo imediato do investimento é aumentar, ou pelo menos preservar, o capital”.

E como não existe almoço grátis, se o investidor está dando almoço pra galera da startup hoje é porque espera que o negócio gere lucros que paguem a conta amanhã.  Ninguém investe por achar uma ideia bacaninha ou para incentivar a criatividade. Quem coloca um milhão de moedinhas de ouro numa startup quer ter um retorno maior do que teria se as deixasse debaixo o colchão. É um conceito de economia chamado custo de oportunidade, que é o custo de alguma coisa em relação ao que deixamos de fazer para ter essa alguma coisa. Explicando melhor, imagine os dois recursos escassos tempo e dinheiro, e a decisão de ir ao cinema. Quando você escolhe ver Os Vingadores é porque considerou que o custo total – ingresso, pipoca, shake de Ovomaltine, transporte, e o tempo de sua vida que nunca mais vai voltar – tudo isso junto vale menos do que o benefício de ver o filme. Você deu dinheiro, ocupou tempo, e renunciou a todos as outras possibilidades para estar ali vendo o filme. E só fez isso pela expectativa de obter o benefício de se divertir.  Ou seja, você ponderou custos e ganhos para decidir se seria melhor investir tempo e dinheiro no filme ou em outra coisa.

Voltando ao investidor, ele espera que alguém pague a conta do almoço que ele tá dando. E quem vai dar a grana pra pagar a conta? Os consumidores. E de novo Mises: São os consumidores e não os empresários que basicamente que pagam os salários ganhos por qualquer trabalhador, pela glamorosa artista de cinema, ou pela faxineira. Cada centavo gasto pelos consumidores determina a direção de todos os processos de produção e os detalhes de organização de todas as atividades mercantis”. Ou seja, o consumo é o objetivo e o desígnio único de qualquer produção”, como já disse Adam Smith.  Então, o investidor irá apostar em negócios que tenham maior potencial de ser pago por consumidores, e não em negócios que tenham maior potencial de receber mais dinheiro dele.

Pra finalizar, vejam esse conceito resumido pelo professor Ubiratan Jorge Iorio “A função empresarial é a capacidade […] de perceber as possibilidades de ganho existentes no mercado”.

Sabemos que tudo o que escolhemos tem como objetivo aumentar nossa satisfação. Pesamos custos e ganhos, e decidimos pelo que esperamos trazer mais benefícios. E aí entra o empreendedor, que identifica no mercado uma demanda e formata uma solução que a atenda, na expectativa de que as pessoas julguem que o ganho obtido ao terem a solução é maior do que o custo da grana que pagaram por ela. É o cenário onde todos ganham. O empreendedor ganha por ter a solução recompensada financeiramente, e o cliente ganha por ter a solução que queria.

Tá, ok, mas o investimento não vale nada? Claro que vale. Vale para ajudar o empreendimento a ter escala, a melhorar processos, e etc. Mas o investimento não é o objetivo final. É uma etapa possível para alcançar o objetivo final.

Sucesso a todos, e bons empreendimentos!

Carlos Batalha

Carlos Batalha

Sobre nosso convidado:

Carlos Batalha

Sócio-diretor da NIMBOZ – Estratégia Digital, autor do livro Consumo Vaporizado – O que há entre a Nuvem e a Terra, e a jornada do consumidor na nova economia multicanal

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carlosbatalha@nimboz.com.br

facebook – www.facebook.com/carlos.batalha.7

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