Dez Passos para Empreender

O Manual da Startup de Sucesso

 Se você clicou nesse texto esperando uma fórumla mágica de como empreender, ou os tais dez — fictícios — passos do título, esse texto é especialmente pra você. Sabe porque?

Porque não existe um roteiro para se criar uma startup, quanto mais uma “de sucesso”.

Empreender, sobretudo digitalmente, não é tarefa simples, nem bonificante, muito menos glamourosa, como algumas, inadvertidas, “personalidades” e publicações fazem crer. Nas, c-o-m-p-r-o-v-a-d-a-m-e-n-t-e, experientes palavras de Romero Rodrigues[1] “Empreender /fundar uma empresa digital exige ‘pele grossa’ ”; traduzindo em miúdos, não espere caminho fácil.

Você odeia seu chefe? Acha que ele te cobra muito? Isso te motiva a abrir uma empresa?

Pense novamente.

Um cliente/usuário é muito mais exigente que um chefe, o cliente não perdoa, o cliente não volta depois de frustrado e mais do que isso, ele afasta, com reviews — virtuais ou reais — outros potenciais clientes do seu produto, site, serviço, aplicativo, sinal de fumaça, etc.

Seus clientes serão muito exigentes que qualquer chefe que você venha a ter.

Você quer ficar rico? Ganhar milhões? Fazer um IPO[2]?

Pense novamente.

É possível ficar rico empreendendo? Óbvio que sim, a esmagadora maioria de bilionários e milionários no mundo são empreendedores de alguma natureza. Empreender é uma das mais promissoras maneiras de ascender socialmente.

Portanto é possível ficar (muito) rico empreendendo… Assim como é possível ficar rico jogando (muito bem) futebol, cantando (muito bem) músicas, trabalhando (muito bem) numa altíssima posição em alguma das maiores empresas do mundo, investindo (muito bem) no mercado de ações, e etc.… Ficar rico é possível de vários modos, todos (exceções feitas a heranças e loterias) exigem MUITO TRABALHO, muita dedicação, uma enorme dose de competência e — pasme — um bom bocado de sorte.

Você quer ser famoso? Sair na capa da revista? Ter um filme, vencedor de Oscar, com o nome do seu site?

Pense novamente.

É verdade que muitos empreendedores ganham destaque na mídia além dos seus campos de competência nas suas startups, isso, contudo, só se dá por conta da atuação deles nas suas empresas e pelos resultados reais ja atingidos, não por ser uma meta pessoal.

Ninguém ganha atenção por colocar uma landing page no ar e ter uma fan page com “x” mil likes no Facebook.

Você quer trabalhar menos, ter horários mais flexíveis, ter mais férias, curtir seus feriados prolongados e aproveitar seus finais de semana?

Pense novamente.

Ledo engano entender que por se ter sua própria empresa se trabalhará menos. Segundo narra Peter Thiel[3], em sua

Startup

obra, Zero to One, há empreendedores no Vale do Silício (Califórnia – EUA) que chegam a ter jornadas de 100 ou até 140 horas semanais (sim, 20 horas por dia!).

Ter sua própria empresa, sobretudo uma startup digital, não te faz ter mais tempo disponível, ao contrário, sugará todo o tempo e atenção que você tiver.

Empreender então não vale a pena né?

Pense novamente.

Empreender vale muito a pena!

Eu sou um advogado de formação, mas um empreendedor por natureza. Não pense que vou contar uma biografia aqui, mas como falei acima, quero compartilhar e ratificar as afirmações que fiz acima com resultados reais, que eu mesmo experimentei.

No final de 2011 — depois de ter “abandonado” o ofício do Direito (ainda que não a faculdade) em meados de 2007 — estava desconfortável com o mundo corporativo. Não porque ele é cruel, não porque ele é “inútil”, nada disso, adoro empresas, elas tem um papel fundamental numa sociedade baseada no trabalho e no capital como a nossa; me sentia desconfortável especificamente com a falta de propósito da esmagadora maioria das empresas paras as quais trabalhei ou via amigos e conhecidos trabalhando. A razão principal de existir dessas empresas é ganhar dinheiro. Apenas isso. Trivial. Banal. Comum.

“Ei, autor imbecil… Empresas servem para ganhar dinheiro seu socialistazinho de quinta…”

Calma! ahhahaha

Não sou socialista (muito ao contrário), adoro dinheiro e o que ele pode proporcionar, numa sociedade e num mundo (ainda) majoritariamente CAPITALista, ter posse do capital obviamente traz enormes benefícios.

Não sou também um alienado sobre o mundo corporativo e falo (como já disse acima) baseado em fatos, não suposições, se não vejamos:

A maior parte das maiores empresas do mundo tem um propósito além do fluxo de caixa, do dinheiro, do lucro, de distribuir dividendos.

A Apple existe para criar grandes produtos;

A Disney existe para levar magia, encantamento e entretenimento às pessoas;

O Google existe para organizar a informação do mundo;

(outras aspirantes, como:)

A Tesla existe para mudar a matriz energética dos meios de transporte, sobretudo o carro;

A SpaceX existe para abrir uma nova fronteira de descobrimento, turismo e exploração do espaço;

Entre tantas outras. As maiores empresas do mundo, são maiores porque tem um propósito.

Sua Startup também tem que ter.

Não porque é bonito, porque é legal, porque os grandes têm, mas porque é o que manterá sua empresa e a resiliência

dos fundadores inabaladas pelos inúmeros contratempos e desgostos que se apresentarão no caminho de qualquer um que se lance a empreender.

Isso não pode ser só da boca pra fora, não é uma frase bonita que você coloca na parede e na home do site. Tem que ser visto e tem que permear toda a empresa, do presidente, CEO, Diretor Executivo (chame como quiser) até os seu

apple

s mais ávidos clientes tem que incorporar esse propósito.

Quando do lançamento do iPad, Tim Cook, então diretor de operações da Apple, foi questionado se esse produto não canibalizaria o mercado do MacBook Air, tirando vendas desse produto, aumentando os custos gerais de produção e, em última análise, gerando um resultado proporcionalmente menor para a empresa naquele exercício.

A resposta do atual CEO da empresa da maçã, exprime o que expus acima: “E daí?”

Confuso, o repórter insistiu, e Cook explicou “Nosso objetivo é fazer grandes produtos, ambos, o MacBook Air e o iPad são incríveis produtos”. Nos meses seguintes as vendas do novíssimo tablet da Apple dispararam, as do MacBook Air também subiram. A conclusão dos analistas do mercado foi de que ao lançar o iPad a Apple atraiu uma nova parcela do mercado para o seu universo. Estes novos consumidores, ao se familiarizarem com o OS e demais características dos produtos da empresa, gostaram e buscaram novas compras/novos produtos.

Se a Apple tivesse buscado maximizar margens e etc (como já fez após a saída do Jobs na época do Sculley) teria perdido mercado, perdido receita e entregue um resultado menor.

Assim, ter um propósito bastante claro e definido, que exprime a razão de existir da sua empresa garantirá a ela um lugar no coração dos potenciais usuários, clientes e compradores, garantirá também funcionários engajados e fidelizados que estão na empresa (além de seus salários é claro) pelo que ela representa e persegue. Se relacionem com algo que está no âmago das pessoas que você que quer atingir a algo poderoso acontece.

Tenha um propósito!

Quando fundei, em Dezembro de 2011, a CoLab a ideia central — que é o core da empresa até hoje — era COLABorar para a criação e desenvolvimento de empresas e um mundo melhor. Parece frase de parachoque de caminhão, ou o chavão “Mundo melhor”, mas enxergamos que ao melhorar as condições de as empresas de tecnologia, sobretudo as startups, de se relacionarem com o mundo (clientes, usuários, investidores e etc) podemos e, efetivamente, melhoramos o planeta.

Assim, a essência da CoLab sempre (SEMPRE) esteve acima da questão financeira. Não se engane, é uma empresa e o lucro deve ser perseguido com afinco, ganhar dinheiro, contudo, não deve e não pode ser o seu principal ou único objetivo (Ninguém tem em seu coração um enorme desejo de que a empresa X ganhe Y dinheiros, mas muitos têm em seu âmago o desejo de que suas próprias empresas cresçam e dêem certo, muitos desejam fazer do mundo um lugar um pouco melhor… Eles encontram isso na CoLab).

Como disse, sempre focamos no nosso propósito e assim, já recusamos jobs (e $$$) de grandes empresas que

Saco de Dinheiro

poluíam água (ao perfurarem poços de petróleo nos EUA – Eu não falei   o nome, mas o Google pode falar); já brigamos com clientes para que eles gastassem menos; já briguei com financeiro pra poder apostar numa startup que não tinha como nos pagar as campanhas que montamos em mídias sociais para eles, e tiveram que estender por oito meses esses pagamentos (hoje, após duas rodadas de investimentos, uma de 1.2 milhões de reais e outra de R$ 1.6 MM, venderam 74% da empresa por um belo valor que tinha escrito aqui, mas que não posso revelar hahaha e seguem nossos clientes — hoje pagando muito bem!).

Pela última vez – tenha um propósito!

Você odeia seu chefe, você quer ficar rico, você quer ficar famoso, você quer trabalhar menos?

Pense novamente.

 

Resultados dos primeiros 2 meses de CoLab (ainda estava trabalhando como funcionário numa consultoria)

  • UM baita escritório num endereço nobre de São Paulo, várias workstations, duas recepcionistas lindas, uma de manhã, outra durante a tarde, uma afro-descendente (mundo pare de ser chato) num fundo amarelo, uma loira num fundo preto; pufês coloridos, logo em alto relevo de vidro, fixado na parede acima da entrada, cartões de visitas “suuuuuperrrrr cools” da com e…
  • ZERO clientes;
  • ZERO receita e….
  • Saída desse escritório, demissão das recepcionistas, venda e/ou armazenamento dos móveis E choque de realidade E APRENDIZADO;

 

Resultados dos primeiros 7 meses de CoLab (trabalhando de casa)

  • ZERO clientes;
  • ZERO receita;
  • Alguns milhares de reais de investimento (que até esse ponto eram apenas prejuízo);
  • CNPJ (sim, só depois desse tempão :-O )

 

Resultados dos primeiros 8 meses de CoLab (usando freelancers)

  • DOIS clientes;
  • Aproximadamente R$ 25.000,00 de receita bruta;
  • Um processo judicial por falta de entrega no prazo do 1o. e correspondente a maior parte do capital acima que, em suma, após um acordo judicial, custou para a empresa quase o dobro do que trouxe de receita.

 

Resultados dos primeiros 13 meses de CoLab (Funcionários e ferramentas próprios)

  • Um noivado do fundador — que vós escreve — terminado;
  • 4 viagens não feitas
  • ZERO dias de férias/feriados
  • CINCO (sim eu contei) finais de semana “sem” trabalho;
  • 47 clientes atendidos;
  • 30 clientes ativos (Novembro de 2012);
  • Aproximadamente R$ 340.000 de receita bruta em 6 meses;
  • Escritório = sala módica, sem recepcionistas modelos, sem um monte de workstations, definitivamente sem pufês coloridos, cheia de pessoas incríveis fazendo acontecer)

 

Resultados atuais (3 anos e 2 meses após a fundação da empresa)

  • Nos tornamos uma agência de marketing digital especialmente focada em startups;
  • Somos parceiros de três das melhores aceleradoras do país;
  • Já atendemos mais de 160 empresas, das quais, aproximadamente 87% são (ou eram) startups;
  • Batemos grandes agências e atendemos gigantes como Wal-Mart, Springer Carrier, Sony, SPFC e alguns outros (gostamos mais das Startups);
  • 95% dos nossos clientes vieram através de indicações de outros clientes;
  • Não fomos mais processados. Não atrasamos mais entregas. Não gastamos com besteira.
  • Seguimos atinentes ao nosso propósito central de COLABorar e isso é a chave de tudo.

 

Isso é uma pequena parte de minha história.

Há muito a dizer, muito a compartilhar, mas certamente não há receita para ter sucesso (há para fracassar).

Se você se deparar com um artigo que tenha a soberba de lhe indicar quais são os X pontos para ter sucesso, ou qualquer fórmula mágica para isso, corra e não perca seus preciosos minutos lendo essa porcaria.

Ninguém tem as respostas pra você, nem quem já conseguiu as próprias respostas. Use a sabedoria dos outros como guia, como aconselhamento, mas esteja pronto para descobrir as suas por si próprio.

Contem comigo pro que precisarem, meus contatos estão abaixo!

 

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Nota do Autor

Nessa semana o Startups Stars comemora dois de sua fundação, nas mãos da minha competentíssima amiga Talita o blog cresceu e se consolidou como um dos principais canais independentes focados em empreendedorismo digital.

Isto posto, foi uma honra para mim ser convidado a escrever esse, já longuíssimo, post convidado. Há muito a dizer, e nem em meu mais otimista sonho, eu seria capaz de expor tudo sozinho, usem o blog e todo o conhecimento que esta contido nele, acessem os empreendedores, troquem experiências e avancemos todos juntos, é  única maneira!

Luiz Candreva

Luiz Candreva

Sobre Luiz Candreva

Luiz Candreva é advogado de formação, e empreendedor por natureza. MBA com major em marketing e inovação pela ESPM-SP. e em Gestão de Negócios internacionais pela Florida International University.

Foi executivo de empresas como Apple e WTC. Migrou para sua verdadeira paixão, empreender, no final de 2011, quando fundou a CoLab, agência de marketing digital, focada em startups, da qual foi CEO até meados de 2014, Hoje é CEO e Fundador do ezPark (www.ezpark.me), plataforma multinacional focada em facilitar e melhorar a interação das pessoas com estacionamentos de qualquer tipo no mundo todo. Dedica o restante do seu tempo a lecionar marketing digital, inovação e empreendedorismo, em Universidades e empresas, no Brasil e nos EUA, além de mentorar startups.

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[1] Fundador do comparador de preços Buscapé;

[2] Da sigla em inglês Oferta Pública de Ações na Bolsa de Valores;

[3] CoFundador do PayPal e do FoundersFund